Um dos principais grupos de rap e hip hop
brasileiros, surgiu no final da década de 80 na periferia de São
Paulo com um discurso contra a opressão às populações
marginalizadas nas grandes metrópoles brasileiras. A primeira
gravação foi em 1988, na coletânea "Consciência Black". Dois anos
depois, o primeiro disco solo, "Holocausto Urbano" levou o grupo a
fazer uma série de shows pela Grande São Paulo, tornando-o mais
conhecido. Em 1991 abriram para o show do grupo norte-americano
Public Enemy, um dos pioneiros e mais famosos grupos de hip hop. A
partir de 1992 os integrantes dos Racionais passaram a desenvolver
um trabalho voltado para comunidades pobres da periferia, fazendo
palestras em escolas sobre drogas e violência policial, racismo e
outros temas. Combativos, em suas letras procuram passar uma
postura até mesmo agressiva contra a submissão e a miséria, usando
a linguagem da periferia, com gírias e expressões típicas. No final
de 1994 um show no Vale do Anhangabaú, no centro de São Paulo,
acabou em confusão e quebra-quebra quando os integrantes do grupo
foram presos pela polícia sob acusação de incitação à violência. A
violência policial é um dos temas mais constantes nas letras dos
Racionais. O disco "Sobrevivendo no Inferno" levou o sucesso do
grupo a um outro patamar, alcançando a marca das 500 mil cópias
vendidas. No entanto, o conjunto adota uma postura dúbia em relação
à mídia e à indústria fonográfica, que dizem ser parte do sistema
que combatem. Algumas músicas dos Racionais são "Fim de Semana no
Parque", "Pânico na Zona Sul"; Mulheres Vulgares", "Hey Boy",
"Diário de um Detento", "Fórmula Mágica da Paz", "Homem na
Estrada". A formação do grupo é com Mano Brown, Edy Rock, Ice Blue
e Kl Jay.
Rap Brasileiro
A cultura Hip Hop, da qual o rap faz parte junto
com o grafite e a dança break, deu o ar da sua graça no Brasil no
começo dos anos 80 (poucos anos depois de seu surgimento, nos
Estados Unidos), mais notadamente em São Paulo. Ela chegou pelas
mãos das equipes que faziam os bailes soul e dos discos e revistas
que começaram a ser vendidos em lojas nas galerias da Rua 24 de
Maio, no Centro (mesmo local onde, na mesma época, encontravam-se
os integrantes do nascente movimento punk). Os primeiros a aparecer
foram os dançarinos de break que, expulsos pelos comerciantes e
policiais da região, transferiram-se para a estação de metrô São
Bento. Logo houve uma cisão entre esses breakers e os rappers
(também conhecidos como tagarelas), que começavam a fazer seus
versos e tiveram que se bandear para a Praça Roosevelt. Pouco tempo
depois, eles se tornaram a facção mais forte e atuante do hip hop
paulistano, levando até alguns breakers a tornarem-se
rappers.
O registro inicial do rap brasileiro é a
coletânea Hip Hop Cultura de Rua (1988, Eldorado). Ela trouxe
faixas dos grupos Thaíde e DJ Hum (produzidas por Nasi e André
Jung, do grupo de rock Ira!), MC Jack, Código 13, entre outros.
Debutava no Brasil o estilo musical baseado em falas ritmadas
despejadas por cima de bases dançantes tiradas de discos de funk,
com eventuais scratches (os arranhões, efeito que os DJs obtêm ao
fazer o disco ir para frente e para trás no prato). No entanto, a
estética discursiva típica do rap já havia sido usada, um ano
antes, para a confecção de um grande sucesso de rádio: Kátia
Flávia, que o carioca Fausto Fawcett gravou com os Robôs Efêmeros.
Os scratches também já haviam aparecido em disco em Estação
Primeira (87), da banda paulistana Gueto.
Em 1988, outra coletânea de rap foi lançada em
São Paulo: Consciência Black (primeiro disco do selo Zimbabwe).
Nela, estava um grupo que daria muito o que falar nos anos
seguintes: os Racionais MCs. Em suas duas músicas, Pânico na Zona
Sul e Tempos Difíceis, Ice Blue, Mano Brown, Edy Rock e o DJ KlJay
deram uma visão nada amenizada de como era dura a vida do jovem
negro e pobre que mora na periferia paulistana, perdido entre o
crime e a injustiça social. No começo dos anos 90, Thaíde e DJ Hum
e os Racionais eram reconhecidos com os mais sérios e importantes
nomes do rap paulistano, sempre envolvidos com campanhas de
conscientização da juventude e movimentos de divulgação, unificação
e promoção do hip hop no Brasil.
Em 1993, quando lançou seu terceiro LP, Raio X
Brasil, os Racionais eram uma unanimidade na periferia, atraindo
até 10 mil pessoas por show, e foram convidados para abrir a
apresentação paulistana do Public Enemy, um dos mais importantes
grupos do rap americano. As músicas desse disco independente - em
especial Fim de Semana no Parque e Homem na Estrada - conseguiram
furar o bloqueio das rádios, levando o nome da banda a um público
que talvez nem suspeitasse haver músicas de tal contundência. Logo,
foi editado pela Continental um CD reunindo as músicas dos três
discos dos Racionais.
Naquela mesma época, surgiu no Rio de Janeiro uma
inesperada força do rap: o adolescente branco de classe média alta
Gabriel Contino, vulgo Gabriel o Pensador, que estourou no final de
1992 nas rádios com a música Tô Feliz, Matei o Presidente,
direcionada para Fernando Collor, que havia acabado de renunciar em
meio a um processo de Impeachment por corrupção. Contratado por uma
grande gravadora, ele voltou às FMs com músicas como Lôraburra e
Retrato de um Playboy, que, apesar do tratamento mais pop da
produção, traziam em suas letras violentas críticas aos costumes da
abastada e deslumbrada juventude carioca. Pouco tempo depois,
Gabriel (que sempre procurou estar ligado ao movimento hip hop),
participou da primeira coletânea de rap carioca, Tiro Incial, da
qual fez parte outro nome do qual se iria ouvir falar: o rapper MV
Bill, da Cidade de Deus.
Paralelamente, o rap se espandia para outras
partes do Brasil, inspirando uma série de artistas, como o Câmbio
Negro e o GOG (de Brasília), o Faces do Subúrbio e o Sistema X (de
Recife, onde também surgiu o rapper-embolador Chico Science), Da
Guedz e Piá (Porto Alegre) e Black Soul (Belo Horizonte). Mais para
o meio da década, o rap experimentou no Brasil suas primeiras
fusões com o rock, em bandas como a carioca Planet Hemp (de Marcelo
D2) e em grupos de rap que viraram banda, como o paulistano
Pavilhão 9 (referência ao local no presídio do Carandiru onde mais
de 100 presos foram executados de uma vez só pela polícia) e Câmbio
Negro.
O grande momento do rap brasileiro, porém, foi em
1998, quando os Racionais MCs lançaram o disco Sobrevivendo no
Inferno, a obra-prima do rap nacional, que ultrapassou a barreira
da periferia paulistana com a música Diário de um Detento. Relato
de um prisioneiro do Carandiru sobre a rotina e suas elocubrações
no dia 1o de outubro de 1992 - ou seja, um dia antes do massacre. O
videoclipe, gravado no próprio Carandiru, acompanhou em ritmo de
documentário a arrepiante letra de Mano Brown. Acabou sendo
escolhido pela audiência da MTV o melhor vídeo do ano. O disco, que
ainda trazia músicas como Jorge da Capadócia (de Jorge Ben Jor),
Capítulo 4, Versículo 3 e Periferia é Periferia (Em Qualquer
Lugar), Sobrevivendo vendeu mais de um milhão de cópias, recorde
para um lançamento independente. Prova da incrível popularidade (e
credibilidade) conquistada pela banda - em maior grau, entre o
público da periferias das grandes cidades brasileiras, ainda que a
sua mensagem tenha tido alguma penetração entre a juventude branca
de classe média.
O sucesso dos Racionais garantiu uma boa
exposição para o rap brasileiro, levando as gravadoras a contratar
mais e mais artistas do gênero no fim dos anos 90 (época em que o
rap também esteve mais forte do que nunca nos Estados Unidos). MV
Bill, apadrinhado dos Racionais, relançou seu disco de estréia CCD
Mandando Fechado com o título Traficando Informação pela gravadora
Natasha, de Paula Lavigne, mulher de Caetano Veloso - e, no Free
Jazz Festival de 1999, apresentou-se com o grupo de rap americano
The Roots. Marcelo D2 lançou seu primeiro disco solo, Eu Tiro É
Onda (98), que trouxe uma inspirada fusão de rap com
samba.
Em Recife, o Faces do Subúrbio apostava, por sua
vez, na embolada-rap. São Paulo, porém, permaneceu sendo o grande
foco da produção de rap no Brasil, com uma forte cena baseada em
uma série de selos independentes. De lá, saíram nomes como DMN, De
Menos Crime, RZO, Xis e Dentinho e os Detentos do Rap, formado por
presidiários do Carandiru (cujo primeiro disco trazia a irônica
inscrição: "Contatos para shows: não disponível no momento). Aliás,
a fascinação do rap pelo tema da criminalidade (expresso nos
Estados Unidos na chamada vertente Gangsta Rap) levou uma série de
artistas a gravarem, em 1999, um disco só com composições de um dos
mais célebres bandidos cariocas, o ex-líder do tráfico José Carlos
dos Reis Encina, o Escadinha.